por Prof. Dr Alexandre Hugo Llanos, cirurgião dentista (CROSP 56071)
Dra Isabela Lopes Santos da Silva, cirurgiã dentista (CROSP 136550)
A extração de um elemento dentário é um momento cercado de apreensão para a maioria dos pacientes. No entanto, o que a grande maioria desconhece é que o término do procedimento cirúrgico de remoção marca o início imediato de uma transformação anatômica silenciosa no tecido ósseo alveolar. Quando um dente é extraído, o organismo inicia um processo de cicatrização que termina na reabsorção progressiva das paredes do osso que antes recobria e sustentava a raiz. Em alguns casos, preservar essa arquitetura original pode ser um passo para o sucesso de uma futura reabilitação com implantes dentários funcionais e esteticamente osseointegrados.
Nosso compromisso na Clínica Llanos de Odontologia é integrar a prática de consultório à pesquisa, ciência e práticas clínicas de ponta. Compreender as bases celulares e volumétricas da cicatrização do tecido ósseo permite transformar um procedimento rotineiro de exodontia em uma estratégia cirúrgica avançada, estratégica e preventiva.
O objetivo principal da técnica denominada preservação do rebordo alveolar (no inglês: alveolar ridge preservation -ARP) é realizar a manutenção de volume do tecido ósseo original com utilização de um enxerto ósseo, e evitar que a cicatrização espontânea após uma extração dentária promova defeitos ósseos que poderiam inviabilizar a instalação segura de um implante dentário.
O Processo Biológico Após a Extração Dental
A raiz do dente não fica “colada” no tecido ósseo, mas fica encaixada de forma precisa. No mesmo momento que o dente é extraído, o osso recebe sangue, que rapidamente se transforma num coágulo. Células especializadas na reabsorção óssea vão para o local junto com o sangue, e estas células irão destruir o osso local para um processo de remodelação, onde um novo tecido ósseo (com um novo formato), será construído como consequência da cicatrização. Esse fenômeno fisiológico ocorre com grande intensidade nos primeiros 2 meses que sucedem a extração.
Estudos clínicos consagrados na literatura mundial demonstram que o rebordo alveolar pode perder de 40% a 60% de sua espessura horizontal original em um curto intervalo temporal caso nenhuma medida preventiva seja executada. Os dados estão muito ligados à perda de volume nos primeiros 5 milímetros de tecido ósseo próximos à coroa dental, na parte estética dos dentes anteriores (região vestibular da maxila), onde a espessura da parede óssea frequentemente não ultrapassa 0,7 mm. (veja mais informações no outro post da nossa clínica “Por que a tomografia é importante no planejamento de um implante dentário?” ). Essa lâmina extremamente delgada é frágil e tende a sofrer uma reabsorção vertical e horizontal profunda, modificando o contorno gengival e gerando defeitos ou assimetrias que podem ser visíveis no sorriso: o paciente percebe que a região “murchou” , ou que os dentes ao lado ” ficaram maiores”.
A técnica de Preservação Alveolar: minimizando a perda de volume do dente extraído.
A preservação alveolar consiste na colocação imediata de enxerto realizado durante a cirurgia de extração dental, após a remoção da raiz do dente comprometido. Normalmente é realizada sem promover descolamento da gengiva. Durante a realização da técnica cirúrgica, o tecido ósseo ao redor do alvéolo é completamente higienizado, desbridado e preenchido com um enxerto ósseo( também chamado de substituto ósseo ou biomaterial).
Esse substituto atua como um estrutura biocompatível tridimensional , com efeito de osteocondutor. É como se fosse uma “casa” estruturada para receber “hóspedes”do tecido ósseo , que são as células responsáveis por fazer as paredes de osso (osteoblastos). Essas células vão transformar uma parte do enxerto em tecido ósseo com o passar dos meses, e em geral esse processo dura de 4 a 6 meses. A parte do enxerto que fica vai manter a estabilidade do tecido com o passar dos anos. Com essa abordagem, o osso para implante dentário é protegido do ponto de vista tridimensional, diminuindo significativamente a realização de novas cirurgias reconstrutivas na região enxertada.

A Contribuição Científica do Prof. Llanos no Journal of Clinical Periodontology
Para garantir segurança aos nossos pacientes, todas as escolhas de materiais na clínica baseiam-se em publicações científicas de alto impacto. Um dos pilares dessa fundamentação é o ensaio clínico randomizado controlado liderado pelo Prof. Dr. Alexandre Llanos, Livre-Docente e Professor da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP), publicado no prestigioso periódico internacional Journal of Clinical Periodontology (DOI: 10.1111/jcpe.13079).
A pesquisa investigou o desempenho volumétrico por meio de tomografia computadorizada de feixe cônico (TCFC) de dois substitutos ósseos padrão-ouro: o mineral ósseo bovino desproteinizado particulado (DBBM, amplamente conhecido como Bio-Oss, da marca Geistlich) comparado ao mesmo biomaterial associado a 10% de colágeno suíno (DBBM-C ou Bio-Oss Collagen, marca Geistlich) em alvéolos da maxila anterior. Os achados forneceram dados clínicos decisivos:
| Parâmetro Clínico e Tomográfico Avaliado | Grupo DBBM (Bio-Oss) | Grupo DBBM-C (Bio-Oss Collagen) |
| Perda Óssea Horizontal Média (após 4 meses) | -1,37 mm | -1,60 mm |
| Reabsorção Percentual da Parede Palatina | Aproximadamente 10% | Aproximadamente 10% |
| Reabsorção Percentual da Parede Vestibular (<0,7 mm) | Superior a 50% | Superior a 50% |
| Viabilidade de Instalação de Implante Dentário | 100% dos sítios tratados | 100% dos sítios tratados |
| Necessidade de Regeneração Guiada Adicional na Reabertura | 10,8% (global do ensaio) | 10,8% (global do ensaio) |
Ao todo foram operados 66 pacientes com a técnica de preservação alveolar (alveolar ridge preservation), com necessidade de tratamento na zona estética (dentes anteriores da maxila: incisivos centrais, incisivos laterais e caninos). Destes , 65 pacientes foram reabilitados com o processo completo: instalação de implantes Straumann BLT, e coroas finais de porcelana sobre implante. Imagens de Tomografias Computadorizadas Volumétricas (Cone Beam Computerized Tomography- CBCT) foram utilizadas para avaliação da variação de volume da Preservação Alveolar. Esse estudo clínico teve acompanhamento de 5 anos após a instalação da coroa de porcelana sobreimplante.
O ensaio clínico comprovou que o Bio-Oss particulado convencional não é inferior ao Bio-Oss Collagen na manutenção da arquitetura tridimensional da crista óssea. Em ambos os grupos, a viabilidade de instalação de implantes atingiu o patamar de 100% após quatro meses de cicatrização biológica, sem a necessidade de novos procedimentos de reconstrução de grande porte em quase 90% dos casos. O estudo também reforçou uma advertência anatômica imperativa: mesmo preenchendo o alvéolo com materiais de ponta, a parede vestibular fina invariavelmente sofre uma reabsorção relativa superior a 50%, demonstrando que a técnica protege o volume global do rebordo, mas exige perícia cirúrgica para compensar os limites biológicos da microanatomia vestibular.

Indicações e Quando Procurar a Preservação Alveolar
Aqui na Clínica Llanos de Odontologia, realizamos os Procedimentos de Preservação Alveolar, seguindo indicações da literatura científica mundial. A grande maioria dos casos que realizamos envolvendo reabilitação oral com implantes é ligada a implantes imediatos, que é quando é realizada a extração do dente e a instalação do implante no mesmo momento. Ainda nos casos de implante imediato, existe a colocação de enxerto ósseo no espaço entre tecido ósseo e implante (denominado GAP) com objetivo de manutenção da arquitetura óssea do rebordo alveolar.
As indicações de tratamento odontológico, principalmente envolvendo procedimentos cirúrgicos, devem ser avaliadas em consultas clínicas usando exames radiográficos e de imagem. Procedimentos cirúrgicos reabilitadores na odontologia só devem ser realizados com profissionais com treinamento técnico adequado à complexidade de cada caso, e com experiência comprovada na área de atuação.
A preservação alveolar está indicada para a grande maioria dos pacientes que necessitam remover um elemento dentário, em condições clínicas ou sistêmicas que contraindicam a instalação imediata de implantes dentários, mas pode ser uma alternativa nesse tratamento. Por exemplo: mulheres grávidas e lactantes, adolescentes, situações onde a extração precisa ser realizada sem tempo para planejamento de instalação de implantes no momento (acidentes, viagens).
A preservação alveolar , especialmente na zona anterior da maxila (a linha do sorriso), visa manter o resultado funcional e estético do tratamento.
Por outro lado, o procedimento exige uma análise minuciosa. Condições de infecção aguda descontrolada no local ou ausência completa de integridade de múltiplas paredes ósseas podem demandar protocolos por etapas de tratamento, passo a passo. A indicação precisa decorre unicamente de uma avaliação diagnóstica personalizada conduzida por um especialista qualificado.
Aviso Clínico: Cada organismo possui um padrão fisiológico de cicatrização singular. A aplicabilidade das técnicas cirúrgicas e a resposta tecidual aos biomateriais variam conforme a higienização do paciente, o tabagismo, o controle glicêmico e a anatomia óssea local, devendo ser estritamente planejadas em consulta presencial especializada.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O procedimento de preservação alveolar dói durante ou após a cirurgia?
Não. A intervenção é executada sob anestesia local odontológica de alta eficácia, assegurando conforto após a cirurgia. Usamos medicações ansiolíticas para todas as cirurgias aqui na nossa clínica, e os pacientes relatam muito conforto e pouco uso de medicação nos nossos casos cirúrgicos.. No período pós-operatório, por não exigir incisões extensas nem descolamento de gengiva, a recuperação costuma ser muito confortável, sendo bem controlada com analgésicos e anti-inflamatórios convencionais ministrados pela nossa equipe , sob supervisão do cirurgião.
Posso fazer a preservação alveolar meses após já ter extraído o dente?
Não. A preservação alveolar (alveolar ridge preservation) é definida pelo ato de preencher e tratar o alvéolo no mesmo tempo cirúrgico da extração dentária. Caso o dente já tenha sido removido há vários meses ou anos e o osso tenha entrado em colapso, a abordagem indicada passa a ser a regeneração óssea guiada (ROG ou GBR: Guided Bone Regeneration), que é uma técnica cirurgica mais avançada para restaurar o tecido ósseo perdido.
Quanto tempo preciso esperar para instalar o implante após o enxerto?
De acordo com os estudos clínicos conduzidos com enxertos com substitutos ósseos particulados de lenta reabsorção, o período médio de integração tecidual e estabilidade biológica situa-se em torno de 4 a 6 meses. Após essa fase, é obtida uma nova tomografia para guiar a inserção tridimensional ideal do implante definitivo com máxima segurança.
O biomaterial ósseo inserido pode ser rejeitado pelo meu organismo?
Biomateriais, como por exemplo por substitutos ósseos Bio-Oss e Bio-Oss Collagen, passam por escala de produção altamente tecnológica e segura, para a completa eliminação de proteínas e componentes celulares antigênicos. Por essa razão, não induzem reação imunológica de rejeição. Eles atuam exclusivamente como condutores biocompatíveis para a neoformação de osso natural.
O Prof. Dr. Alexandre Hugo Llanos é diretor da Clínica Llanos de Odontologia, Professor Livre Docente da Faculdade de Odontologia da USP (FOUSP). Também é PhD em Periodontia e especialista em Implantodontia pela FOUSP. Orientador permanente do Programa de Pós-Graduação (mestrado e doutorado) em Diagnóstico Bucal, Radiologia e Imaginologia da FOUSP, área de concentração em Odontologia Digital.
A Profa Isabela Lopes Santos da Silva é graduada pela Faculdade de Odontologia da USP (FOUSP). Especialista em Dentística Restauradora e Estética. Doutorado em andamento pelo Programa Diagnóstico Bucal, Radiologia Odontológica e Imaginologia da Faculdade de Odontologia da USP, área de concentração em Odontologia Digital. Participa como membro colaborador da Disciplina de Clínica Integrada da FOUSP. Atua em clínica privada na área de Dentística, Estética Dental
Referências Bibliográficas
- Llanos AH, Sapata VM, Jung RE, et al. Comparison between two bone substitutes for alveolar ridge preservation after tooth extraction: Cone-beam computed tomography results of a non-inferiority randomized controlled trial. J Clin Periodontol. 2019;46:373-381.
- Canellas JVS, Medeiros PJD, Figueredo CMS, Fischer RG, Ritta FG. Which is the best choice after tooth extraction, immediate implant placement or delayed placement with alveolar ridge preservation? A systematic review and meta-analysis. J Cranio Maxillofac Surg. 2019;47:1793-1802.
- Jung RE, Philipp A, Annen BM, et al. Radiographic evaluation of different techniques for ridge preservation after tooth extraction: A randomized controlled clinical trial. J Clin Periodontol. 2013;40:90-98.
- Araújo MG, da Silva JCC, de Mendonça AF, Lindhe J. Ridge alterations following grafting of fresh extraction sockets in man. A randomized clinical trial. Clin Oral Implants Res. 2015;26:407-412.
- Barone A, Ricci M, Tonelli P, Santini S, Covani U. Tissue changes of extraction sockets in humans: A comparison of spontaneous healing vs ridge preservation. Clin Oral Implants Res. 2013;24:1231-1237.